
Uma pasta contendo documentos e anotações sobre os nomes de servidores da Câmara Municipal de Ipojuca, na Região Metropolitana do Recife (RMR), além de registros de valores que totalizam R$ 345 mil, foi apreendida durante as prisões em flagrante dos vereadores Flávio do Cartório (PSD) e Professor Eduardo (PSD). O presidente e o primeiro vice-presidente da Câmara de Ipojuca foram detidos dentro de um supermercado na capital pernambucana.
De acordo com a Polícia Civil, existe a suspeita de que esse material se refira a um controle mensal de um possível esquema de “rachadinha”, ligado a desvio de emendas parlamentares, que está sendo investigado pela Operação Alvitre, e que pode envolver até R$ 27 milhões. Uma nova fase da operação foi iniciada com a execução de três mandados de prisão e 19 de busca e apreensão.
Conforme o boletim de ocorrência relacionado à prisão dos vereadores, os parlamentares foram detidos sob suspeita de envolvimento com o crime de lavagem de dinheiro. Eles foram capturados pelo Grupo de Operações Especiais (GOE), enquanto estavam em um veículo dentro do supermercado de Boa Viagem, na Zona Sul do Recife, com uma sacola que continha R$ 14.267.
Ainda segundo o documento, em outro carro, pertencente a Flávio do Cartório, os policiais encontraram uma nécessaire com dois envelopes: um vazio e o outro com R$ 3 mil.
Na mesma noite, os vereadores foram levados para depor na Central de Plantões da Capital, localizada no bairro Campo Grande, na Zona Norte do Recife. Os advogados dos acusados optaram por não comentar o caso com a imprensa. De acordo com informações iniciais, Flávio do Cartório estava sendo monitorado desde a primeira fase da Operação Alvitre, no início de outubro, e já possuía um mandado de prisão em aberto relacionado a essa investigação.
O PSD de Pernambuco, por meio de uma nota, afirmou que acompanhará as investigações sobre os parlamentares filiados ao partido e que tomará “as medidas necessárias” quando o “processo legal for concluído”. Procurada, a Câmara Municipal de Ipojuca não se manifestou.
As investigações começaram em outubro de 2024, com o lançamento da primeira fase da operação. Com o apoio da Polícia Militar e das unidades de inteligência das instituições envolvidas, a Alvitre II tem como objetivo combater uma organização criminosa que desvia recursos públicos de Ipojuca. O foco da Operação Alvitre, na qual o vereador Flávio do Cartório está sendo investigado, é o uso de empresas fantasmas para desviar verbas de emendas parlamentares impositivas, que são recursos destinados pelos vereadores a projetos específicos dentro do orçamento municipal.
A apuração indicou que os valores públicos estavam sendo direcionados a associações de fachada em outros municípios, sem a infraestrutura ou qualificação necessária para implementar os projetos previstos.
Além disso, no dia 28 de outubro, Simone Marques da Silva, uma mulher de 46 anos, foi assassinada em sua casa pouco depois de ter comparecido à Delegacia de Porto de Galinhas para prestar depoimento sobre o caso. Ela era professora universitária e, segundo a polícia, estaria ligada a uma das investigadas no esquema.
Simone foi baleada poucas horas após remarcar o depoimento que não aconteceu devido a outros procedimentos em andamento na delegacia. O inquérito aponta que uma das principais entidades beneficiadas pelos desvios foi o Instituto de Gestão de Políticas Públicas do Nordeste (IGPN), que recebeu R$ 6,3 milhões em nove emendas parlamentares.
Ao menos quatro pessoas associadas ao IGPN estão sendo investigadas:
Eva Lúcia Monteiro e Edjane Silva Monteiro: irmãs advogadas que, em outubro, foram presas por envolvimento com o IGPN.
Maria Netania Vieira Dias: também presa, foi responsável por ajudar na elaboração de propostas e na captação de orçamentos para as empresas envolvidas.
José Gibson Francisco da Silva: presidente do IGPN, que segue foragido.
Julio Cesar de Almeida Souza: diretor financeiro do IGPN, também foragido.
O inquérito ainda menciona o Instituto Nacional de Ensino, Sociedade e Pesquisa (Inesp), que opera sob o nome de Faculdade Novo Horizonte. A polícia investiga a utilização dessa instituição para desviar recursos, com repasses milionários para cursos de capacitação que tinham planos de trabalho inconsistentes e orçamentos superfaturados.
No dia 5 de novembro, o empresário Gilberto Claudino da Silva Júnior, ex-gestor da Faculdade Novo Horizonte, foi preso. Ele é considerado o “coordenador” do esquema e foi detido após ficar um mês foragido.
Ao longo do dia, a Polícia Civil efetuou a prisão de mais dois suspeitos de participação no desvio de mais de R$ 27 milhões provenientes de emendas parlamentares no município de Ipojuca, na Região Metropolitana do Recife. Entre os detidos na Operação Alvitre II estão o presidente do Instituto Filhos de Ipojuca — organização vinculada ao vereador e presidente da Câmara, Flávio do Cartório (PSD) — e um empresário que prestava serviços ao município.


