Opinião | Churras de domingo: o paradoxo do pimentão e o que o Japão ensina sobre viver muito

Por Pedro Veloso Domingo passado, o cenário era o clássico de qualquer brasileiro de bem: churrasqueira acesa, amigos reunidos e aquela fumaça que abre o apetite. Mas, ao servir os primeiros cortes, percebi uma hesitação no casal de amigos que recebi. São pessoas cultas, conectadas, mas que vivem a realidade do asfalto e do escritório. […]
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Por Pedro Veloso

Domingo passado, o cenário era o clássico de qualquer brasileiro de bem: churrasqueira acesa, amigos reunidos e aquela fumaça que abre o apetite. Mas, ao servir os primeiros cortes, percebi uma hesitação no casal de amigos que recebi. São pessoas cultas, conectadas, mas que vivem a realidade do asfalto e do escritório. Do tipo que só pisa na terra se for para tirar foto da paisagem.

Eles recusaram a salada e olharam desconfiados para a carne. Logo veio a explanação, carregada daquela certeza que só as manchetes rápidas proporcionam:

Me explicaram, orgulhosos, que haviam decretado boicote às gôndolas de supermercado em favor das feirinhas de bairro. O motivo? A convicção de que o produto do agronegócio vem banhado em veneno, tese reforçada pelo noticiário recente sobre o recorde de registros de químicos em 2025. Na cabeça deles, fazer feira no mercado virou esporte de alto risco.

Pousei o garfo e percebi que ali, entre a carne e o guaraná, havia uma oportunidade de desfazer esse nó de desinformação tão comum nos grandes centros urbanos. Não com um embate, mas com contexto e fatos.

Comecei explicando algo que pouca gente sabe: o Brasil é a única nação do mundo que adota a nomenclatura oficial ‘agrotóxico’. E isso não é casualidade linguística, é uma jabuticaba legislativa plantada em 1989. O termo foi cunhado no final da década de 70 por um pesquisador brasileiro com um objetivo ideológico claro: carimbar no produto a ideia de morte, apagando sua função essencial. Enquanto o resto do planeta usa ‘pesticida’ ou ‘produto fitossanitário’, nós criamos um neologismo para assustar a população.

No campo, porém, entre quem entende de agronomia e produção, o nome correto sempre foi defensivo agrícola. E não se trata de eufemismo para amaciar a conversa. Chamamos assim porque essa é, estritamente, a função biológica da tecnologia: defender a lavoura. Uma plantação é um campo de batalha constante onde insetos, fungos e plantas daninhas competem agressivamente com as plantas que nos interessam. Sem essa defesa ativa, a comida simplesmente não chega à mesa em quantidade suficiente, e a fome vence a guerra.

A grande ironia — e foi aqui que meus amigos arregalaram os olhos — é que o medo desse nome empurrou muita gente para uma armadilha. Na busca por fugir do Grande Agro, o consumidor urbano corre para a feira livre sem fiscalização, acreditando que a informalidade ou pequenez é sinônimo de pureza.

Para ilustrar onde o perigo realmente se esconde, compartilhei um episódio que presenciei certa vez com a impotência de quem enxerga o erro técnico, mas não tem poder para impedir. O protagonista, a quem chamarei de Seu Zé, era um produtor de pimentão do cinturão verde, trabalhador, mas desassistido.

Numa sexta-feira à tarde, ao ver a lavoura atacada por lagartas, o desespero de perder a produção inteira falou mais alto que a técnica. Ele pulverizou a roça ali mesmo e colheu tudo na madrugada seguinte, ignorando solenemente o período de carência — o intervalo vital para o químico se degradar. Diante do meu alerta sobre a segurança daquele alimento, a resposta dele não foi verbal, mas prática: entre seguir a bula do remédio e perder a única feira da semana, a lógica da sobrevivência escolheu garantir o pão na mesa, custasse o que custasse.

O resultado? O pimentão da feira, comprado como símbolo de saúde, pode carregar um risco químico muito maior do que o da prateleira do grande supermercado. Por quê? Porque as grandes redes de varejo e as tradings que compram do agronegócio possuem departamentos de compliance rigorosos. O produtor profissional, fiscalizado à exaustão, sabe que se um resíduo for encontrado fora do padrão, o contrato é cancelado na hora. O Agro Tecnológico não usa o defensivo porque gosta de gastar dinheiro com química, usa com precisão cirúrgica para defender o ativo dele.

Para selar a conversa, trouxe um dado que costuma dar nó na cabeça de quem critica sem conhecer: o Japão.

Pasmem vocês: o país nipônico é, historicamente, o maior consumidor de defensivos agrícolas por hectare do mundo. Como possuem pouca terra e muita umidade, precisam blindar suas lavouras intensivamente para garantir altas produtividades. Se a lógica simplista de que “defensivo mata” fosse verdade, o Japão deveria ter uma crise de saúde pública. E, no entanto, é o país com a maior longevidade do planeta.

O segredo japonês não é a ausência do produto, é o uso correto. É tecnologia de aplicação, respeito às doses e equipamentos de proteção. Exatamente o caminho que o agronegócio profissional brasileiro trilha. O recorde de liberações em 2025, que tanto assusta na TV, na verdade reflete a chegada de moléculas mais modernas, seletivas e seguras, que vêm para substituir tecnologias antigas. Estamos atualizando a farmácia, não envenenando o paciente.

Ao final da explicação, o clima pesado de desconfiança se dissipou e a fome venceu o medo infundado.

O agro brasileiro não tem interesse algum em prejudicar quem consome. Afinal, clientes saudáveis e vivos continuam comprando. O que garante a segurança do alimento não é o romantismo de quem o produziu, mas a técnica, a gestão e a responsabilidade envolvidas no processo. No fim das contas, a melhor defesa para o nosso prato é a informação correta. E a propósito, a carne estava ótima.

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