Opinião | A moda do impeachment: quando o remédio vira propaganda eleitoral

Em Pernambuco, e particularmente no Recife, começa a se tornar preocupante a banalização de um instrumento parlamentar que deveria ser raro e tratado com máxima responsabilidade. Impeachment não é peça de marketing nem atalho para disputa política. É um mecanismo extremo de responsabilização institucional, com rito, contraditório e pressupostos jurídicos próprios, capaz de afastar mandatários […]
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Em Pernambuco, e particularmente no Recife, começa a se tornar preocupante a banalização de um instrumento parlamentar que deveria ser raro e tratado com máxima responsabilidade. Impeachment não é peça de marketing nem atalho para disputa política. É um mecanismo extremo de responsabilização institucional, com rito, contraditório e pressupostos jurídicos próprios, capaz de afastar mandatários eleitos e produzir impactos reais na governabilidade e na confiança pública. Quando esse remédio passa a ser acionado como gesto rotineiro de confronto, perde-se a seriedade do controle e ganha-se apenas ruído.

No Recife, a Câmara Municipal recebeu, em 6 de janeiro de 2026, pedido de impeachment contra o prefeito João Campos, protocolado pelo vereador Eduardo Moura (Novo). O requerimento se apoia na controvérsia envolvendo o concurso para procurador do município e a nomeação de um candidato na lista de cotas PCD após reclassificação vinculada a laudo de TEA, nomeação posteriormente revogada pela Prefeitura em 31 de dezembro de 2025. O pedido foi apresentado como denúncia por infração político-administrativa, com referência ao Decreto-Lei nº 201/1967 e à Lei Orgânica do Recife, e sustenta, entre outros pontos, alegada violação ao edital e a princípios como legalidade e isonomia. (JC, 06.01.2026)

Na esfera estadual, a Assembleia Legislativa de Pernambuco recebeu, em 19 de janeiro de 2026, pedido de impeachment contra a governadora Raquel Lyra, apresentado pelo deputado Romero Albuquerque (União Brasil). A narrativa se baseia em denúncias relativas à empresa de transporte intermunicipal Logo Caruaruense, vinculada à família da governadora, com alegação de omissão deliberada de fiscalização pela EPTI e menção a supostas irregularidades. A Presidência da Alepe informou que a análise formal do requerimento ocorrerá a partir de 2 de fevereiro de 2026, com a retomada dos trabalhos legislativos. (JC, 19.01.2026)

O ponto central aqui não é escolher lado, nem antecipar juízo político, mas enxergar o efeito institucional de transformar impeachment em instrumento de propaganda política antecipada com viés negativo, especialmente em ano eleitoral e às vésperas de um embate que tende a polarizar o Estado. Se, a cada crise, controvérsia administrativa ou denúncia pública, a resposta automática passa a ser “protocola-se um impeachment”, o Parlamento corre o risco de reduzir um mecanismo sério a panfleto, trocando investigação rigorosa por encenação. A democracia perde duas vezes: enfraquece-se a credibilidade do controle político e empurra-se o eleitor para um ambiente de conflito permanente, em que a excepcionalidade vira rotina e a responsabilização vira tática. O que Pernambuco precisa, agora, não é a moda do impeachment, mas a cultura da apuração responsável, do devido processo e da política com compromisso com a verdade dos fatos.

Por Delmiro Campos

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