O governo de Pernambuco convocou uma coletiva de imprensa nesta segunda-feira (26) para esclarecer a denúncia de que policiais civis teriam espionado o secretário de Articulação Política e Social da Prefeitura do Recife, Gustavo Queiroz Monteiro. A acusação foi veiculada no domingo (25) pela TV Record e aponta que um carro funcional utilizado pelo secretário teria sido monitorado entre agosto e outubro de 2025, inclusive com a instalação de um equipamento rastreador.
A Polícia Civil confirmou que houve monitoramento do veículo, mas negou qualquer ilegalidade. Segundo a corporação, a ação ocorreu no âmbito de uma investigação preliminar motivada por uma denúncia anônima sobre suposto recebimento de propina envolvendo o uso de um automóvel da frota municipal.
De acordo com o secretário de Defesa Social de Pernambuco, Alessandro Carvalho, a denúncia chegou à SDS acompanhada de imagens do secretário, de seu irmão e do veículo estacionado em local público. O documento descrevia Gustavo Monteiro como “braço direito do prefeito” e responsável por coordenar um esquema de arrecadação e distribuição de recursos ilícitos.
Ainda segundo o texto da denúncia, o irmão do secretário, Eduardo Monteiro — assessor da prefeitura — seria responsável pela cobrança direta de propinas a fornecedores do município, com percentuais que variariam entre 4% e 10%, podendo chegar a 50% em casos de valores a restituir ou pendências de pagamento. O pai dos dois, Henrique Monteiro, também é citado no documento, assim como empresas ligadas ao pai do presidente da Câmara Municipal do Recife, vereador Romerinho Jatobá (PSB).
Monitoramento e grupo de WhatsApp
A denúncia revelou a existência de um grupo de WhatsApp chamado “Nova Missão”, formado por policiais civis e delegados, onde seriam compartilhadas informações sobre a rotina do secretário e de seu irmão. A Secretaria de Defesa Social confirmou a existência do grupo, mas informou que o conteúdo foi vazado por um policial investigado em outro procedimento.
Segundo a denúncia, o veículo utilizado por Gustavo Monteiro era seguido desde a saída de casa até o retorno à noite. Em determinado momento, agentes teriam instalado uma “tag” de rastreamento no carro enquanto ele estava estacionado em um supermercado.
A defesa do secretário, representada pelo advogado Eduardo Trindade, afirma que o monitoramento aparenta ser ilegal e caracteriza uso indevido da estrutura do Estado para investigar membros da cúpula da Prefeitura do Recife.
“O que preocupa não é investigar, mas a metodologia. Monitoramento oculto, com uso de rastreadores, sem inquérito instaurado e sem autorização judicial, é algo incompatível com o Estado Democrático de Direito”, declarou o advogado.
Ele também questionou o fato de não haver inquérito policial formalmente instaurado durante o período de acompanhamento, o que, segundo a Polícia Civil, é comum em investigações preliminares baseadas em denúncias anônimas.
Governo afirma legalidade
Durante a coletiva, Alessandro Carvalho afirmou que deu ordem para a verificação preliminar justamente para evitar a abertura precipitada de um inquérito policial sem elementos mínimos de materialidade.
“O foco da investigação era o veículo da frota municipal, não a pessoa do secretário, nem sua família, nem sua residência, nem veículo particular. Foi uma vigilância sobre um bem público”, afirmou.
Segundo a SDS, o entendimento do Supremo Tribunal Federal é de que denúncias anônimas não autorizam, por si só, a instauração de inquérito, mas permitem diligências preliminares para verificar sua procedência. A secretaria sustenta que não houve violação de privacidade nem exposição indevida e que, ao final da apuração, não foram encontrados indícios suficientes para abertura de inquérito policial.
Questionado sobre a instalação do rastreador, o secretário afirmou que se trata de técnica de investigação amplamente utilizada e que não exige autorização judicial quando aplicada a um veículo público.
“Para interceptação telefônica, escuta ambiental ou acesso a celular, é necessária autorização judicial. Para vigilância de veículo, não”, declarou.
Alessandro Carvalho também negou que a “tag” tenha sido adquirida de forma particular por agentes e afirmou que a compra ocorreu por meio institucional, utilizando verbas regulamentadas, embora tenha evitado detalhar os procedimentos, alegando sigilo operacional.
Por fim, o secretário informou que será instaurado um inquérito policial para apurar o vazamento das informações e das mensagens do grupo “Nova Missão”, classificadas como dados sensíveis do setor de inteligência da Polícia Civil.


