O Galo da Madrugada de 2026 presta homenagem a Dom Helder Câmara, figura histórica marcada pela defesa dos direitos humanos, da justiça social e da paz. Intitulada Galo Folião Fraterno, a alegoria deste ano tem como pilares a inovação tecnológica, a sustentabilidade e a valorização da saúde mental, reafirmando o compromisso do Carnaval do Recife com causas sociais e culturais.
Com 32 metros de altura e cerca de oito toneladas, a escultura ficará exposta entre os dias 11 e 18 de fevereiro, levando ao coração da cidade uma mensagem de fraternidade, fé e compromisso coletivo. A obra é assinada pelo designer, multiartista e arteterapeuta Leopoldo Nóbrega, que mantém a tradição iniciada em 2019 de utilizar exclusivamente materiais descartáveis e recicláveis na confecção do Galo.
Entre os itens reaproveitados estão CDs, tampas de garrafa, plásticos, redes de pesca, conchas, lonas, restos de cortinas e garrafas PET. As cores verde, amarelo, azul e branco foram escolhidas para representar o Brasil em ano de Copa do Mundo.
A temática da saúde mental ocupa lugar central no projeto e é inspirada no legado de Nise da Silveira, médica alagoana que revolucionou o cuidado em saúde mental no país. As peças que compõem o Galo são produzidas por artesãs em situação de vulnerabilidade social, a partir de métodos da arteterapia, utilizando técnicas como colagem, pontilhismo e termocolagem, com espelhos e tintas à base de água.
As oficinas são supervisionadas pela Traços Estudos em Arteterapia e realizadas em equipamentos da Rede de Atenção Psicossocial (RAPS), como os Centros de Convivência Recomeço Fátima Caio, o Centro Integrado de Atenção à População em Situação de Rua (CINPOP) e o convento da Província Franciscana.
A escolha de Dom Helder Câmara como homenageado dialoga diretamente com a história do Carnaval pernambucano. O arcebispo via na festa popular uma expressão de fé, esperança e resistência, e durante anos abençoou blocos carnavalescos nas prévias. Considerado um dos principais nomes da Teologia da Libertação, Dom Helder foi indicado quatro vezes ao Prêmio Nobel da Paz e teve atuação marcante junto às populações mais vulneráveis do Recife, onde viveu até sua morte, em 1985.
Além da dimensão simbólica, a escultura incorpora elementos de ciência e tecnologia. Espirais helicoidais de DNA aparecem nas penas da cauda, celebrando a vida, enquanto as 27 estrelas da bandeira brasileira serão representadas por peças produzidas com tecnologia de impressão 3D, desenvolvida pelo núcleo de robótica da comunidade do Xié e Entra Apulso. No peito, o Galo traz um Sagrado Coração iluminado com LED e materiais oriundos de descartes tecnológicos.
O figurino da alegoria percorre simbolicamente Pernambuco, do Sertão ao litoral, com referências aos gibões do cangaço, ao sol e às estrelas, além de biojoias feitas com conchas marinhas e redes de pesca, chamando atenção para os impactos do descarte inadequado de resíduos nos mares e manguezais. As penas da cauda ganham ainda sombrinhas de frevo e estruturas volumosas confeccionadas com restos de cortinas.
Parte da confecção envolve usuários das políticas públicas municipais, em parceria com as secretarias de Saúde e de Assistência Social e Combate à Fome, além da Coordenação de Saúde Mental, Álcool e Outras Drogas e da Província Franciscana Santo Antônio do Brasil, reforçando a arte como ferramenta de cuidado, inclusão e promoção da saúde emocional.
Para Leopoldo Nóbrega, a obra estabelece um diálogo simbólico entre Dom Helder Câmara e Nise da Silveira. Segundo o artista, as peças feitas manualmente funcionam como “cartas” que conectam empatia, cuidado com o próximo e compromisso social — valores que atravessam tanto a trajetória do homenageado quanto o conceito do Galo Folião Fraterno.


