Por Lucas Arruda, Daniele Monteiro e Evandro Chaves
A relação do Brasil com o seu passado é de estranheza. Rupturas sociais e violências de Estado das mais diferentes naturezas marcam os 526 anos de um país cuja memória é cheia de cicatrizes profundas. Para fatos que não poderiam – e não podem – ser esquecidos, o apagamento foi tomado por muito tempo como remédio social. Aos poucos, o brasileiro percebe que é a hora de se defrontar com as suas próprias dores para, quem sabe assim, curar as feridas.
Agentes como a música, o cinema, a literatura e o próprio jornalismo sempre buscaram, a seu modo, aproximar o Brasil de si e expor crimes de Estado como os praticados pela Ditadura Militar. Para o período entre 1964 e 1985, o relatório final da Comissão Nacional da Verdade (CNV) aponta 434 mortos ou desaparecidos por influência direta do regime militar. Já a Human Rights Watch estima, em relatório publicado em 2019, que cerca de 20 mil pessoas tenham sido torturadas. Pais, mães, filhos, camponeses, estudantes, artistas, brasileiros.
No Recife, uma das cidades onde a Ditadura Militar deixou marcas profundas, um espaço no coração da Zona Norte permite uma verdadeira imersão na memória de inúmeras vítimas da violência do Estado. E por que não dizer, convida a reflexão sobre o hoje a partir do nosso ontem – que por muito tempo foi escondido.


Memorial da Democracia de Pernambuco
Entre a Estrada do Arraial e a Estrada do Encanamento, duas das avenidas mais movimentadas da Zona Norte do Recife, no bairro de Casa Amarela, calmaria. Exceto no São João, já que o espaço é polo disputado da festa. A reportagem da CBN Recife esteve no Sítio Trindade (Arraial Velho do Bom Jesus) no começo de 2026 para conhecer um pouco melhor sobre o que tem no bonito casarão branco, com detalhes vermelhos, em meio ao verde da vegetação. É o Memorial da Democracia de Pernambuco Fernando Vasconcellos Coelho.
Memorial, e não museu. Pedro Alb Xavier, um dos gestores do equipamento, faz questão de explicar a diferença. “É porque aqui a gente fala sobre as memórias das pessoas que foram maltratadas pelo Estado. O museu está mais ligado a uma produção histórica da memória. Somos um equipamento feito pelo Estado para restaurar e falar sobre os crimes cometidos por esse Estado. As pessoas que estão aqui representadas lutaram contra o Estado. E porque a gente não está apegado nos artefatos materiais desse período. É muito difícil, inclusive, achar artefatos materiais para trazer para cá. Então, temos relatos, experiências… temos a memória das pessoas que foram violentadas nesse período”, conta.

Prova disso é que algumas das fotos expostas no Memorial não têm nome. Também há nomes sem foto. Identidades que tiveram retirado o direito de serem identificadas, e que por isso, resistem até hoje.
Em si, o Memorial da Democracia está diretamente ligado ao processo de apuração histórica realizado pela Comissão Estadual da Memória e Verdade Dom Helder Câmara (CEMVDHC), instituído pela Lei nº 14.688, de 1º de junho de 2012. É o conhecimento construído a partir do acervo da Comissão, preservado pelo Arquivo Público do Estado e pelo Arquivo Nacional, que o visitante tem acesso.
Como recomendado pela própria Comissão Estadual da Verdade, o Memorial vai além da Ditadura Militar, com diferentes períodos ganhando espaço e forma nas salas do casarão, como a Revolução Pernambucana (1917) e a luta dos movimentos sociais no século XX.
“Trazemos essas memórias hoje para que essas violências não se repitam, para que possamos tratar isso como equipamento de educação contemporânea. Desde o período das lutas contra as ocupações holandesas, passando pelas lutas contra a escravidão, nós temos um contexto de resistência fundamental em Pernambuco. E revelar isso, inclusive, apropria a nossa população de ser legatária dessa história. Foram pessoas comuns que lutaram naquele período, são pessoas comuns que vão lutar nas violações que a gente pode ter hoje. É no ordinário que a gente luta”, reforça Pedro Alb Xavier, que fala do Memorial da Democracia de Pernambuco com orgulho.

Educação
O Memorial da Democracia é, sobretudo, um espaço aberto para a presença de estudantes. Além da visitação, são várias as oficinas oferecidas pelo equipamento por meio da Secretaria Estadual de Justiça, Direitos Humanos e Prevenção à Violência. Em uma delas, em dezembro de 2025, os participantes refletiram sobre as letras compostas no período da Ditadura Militar. Em outra, ajudaram a preencher o varal e a varanda do casarão com colagens sobre vítimas de violência do Estado como o Padre Henrique Vieira e Soledad Barret.
A secretária executiva de Direitos Humanos, Fernanda Rafaella, pontua que as ações realizadas no Memorial, em especial, com as escolas e universidades, fomentam o resgate histórico. “O estado de Pernambuco é o primeiro a trazer um equipamento como esse no Brasil. Passamos por apagamentos históricos, e através desse trabalho e do estudo incessante, colocamos o Memorial à disposição das pessoas para que vivenciem um pouco da nossa história”, destaca.
Fotos 1 e 2: varanda do Memorial da Democracia de Pernambuco; Foto 3: Equipe gestora do Memorial da Democracia; Foto 4: Pedro Alb Xavier conta para visitantes sobre a bandeira de Pernambuco; Foto 5: sala do Memorial da Democracia de Pernambuco
Além da interação com o guia, o visitante tem acesso a materiais audiovisuais enquanto conhece as salas e seus temas, que vão desde os movimentos de resistência dos séculos XVII e XVIII até o aprofundamento sobre as lutas por direitos, educação e cultura em Pernambuco.
O local ainda é marcado por ter sido a primeira e única sede do Movimento de Cultura Popular (MCP), espaço fundamental para o desenvolvimento do método de alfabetização de jovens e adultos por Paulo Freire. As paredes, cerâmicas e adereços do Memorial da Democracia de Pernambuco contam a história viva do estado.
Visitas

Uma das principais metas da equipe gestora do Memorial da Democracia de Pernambuco é fazer com que ele seja cada vez mais conhecido. As visitações guiadas – e totalmente gratuitas – podem ser realizadas de terça-feira a sábado, das 9h às 17h, com a última entrada a partir das 16h30. Estar mais presente na internet está nos planos da equipe gestora.
No caso de escolas e grupos, é possível realizar o agendamento a partir de 10 pessoas por meio do link disponível na bio do perfil @memorialdemocraciape.
Quem passou pela experiência de conhecer o Memorial da Democracia de Pernambuco foi o professor da Universidade Federal do Sul e Sudeste do Pará, Geovani Gomes. Ele contou à CBN Recife que, apesar de ser pernambucano, não conhecia o equipamento. Por isso, ficou impressionado com o que encontrou.

“A questão da casa em si, de utilizar o espaço e de pensar nessas diversas lutas em prol da democracia, de resistência, de pensar nessas pessoas que foram mortas, que foram silenciadas. Acho que isso é de uma grandeza fundamental para nossa história, para nossa memória, para que as escolas, principalmente, possam visitar e conhecer. A memória tem que estar sempre sendo exposta”, acredita.
O Memorial da Democracia de Pernambuco atua como guardião da memória de um povo que esquece fácil. Por isso, se movimenta, propõe o resgate de um passado de autoritarismo e violência estatal muito mais próximo do presente do que parece. Não para que se repita, mas para que se saiba como fazer diferente e como chegamos até aqui.
Produção e reportagem – Lucas Arruda
Edição de texto – Daniele Monteiro
Sonorização – Evandro Chaves







