Marconi Aurélio e Silva é doutor em Ciência Política
Pernambuco se prepara para uma das mais emblemáticas campanhas eleitorais das últimas décadas. E ela deve ocorrer entre duas famílias que antes foram aliadas politicamente e que agora se tornaram rivais: os Campos e os Lyra.
A aliança que tornou vitorioso o projeto estadual liderado por Eduardo Campos e João Lyra Neto, em 2006,decompôs-se em 2014, com a escolha de Paulo Câmara como herdeiro na sucessão estadual daquele ano. Contudo, dos 16 anos consecutivos da hegemonia pessebista em Pernambuco, a metade do tempo os Campos e os Lyra estiveram juntos!
Para driblar o isolamento e testar a resiliência política dos Lyra, entretanto, foi preciso voltar às origens e renovar os atores políticos, antecipando a própria transição geracionalcom a inesperada vitória de Raquel Lyra contra Tony Gel,em 2016, na disputa pela Prefeitura de Caruaru. Retomou-se, assim, o protagonismo da família sobre as bases eleitorais da Capital do Agreste à revelia do PSB (que negou o partido à candidatura de Raquel) e do então governador Paulo Câmara.
Mas, a história dá voltas. Quase uma década depois o grupo caruaruense retornou ao Palácio do Campo das Princesas pela porta da frente e, em 2022, num processo eleitoral marcado mais uma vez por luto e comoção popular, Pernambuco elegeu a primeira mulhergovernadora, que também figura dentre raros governantes pernambucanos cujas bases eleitorais principais eram do interior do estado.
No reduto dos Campos, a transição geracional também foi antecipada. João e Pedro, filhos de Eduardo Campos, herdaram seu espólio político bem mais cedo. Ambos se elegeram deputados federais em momentos distintos e João se tornou o mais jovem prefeito eleito dentre as capitais brasileiras, acumulando desde então experiência administrativa, introduzindo novas práticas de comunicação e interação com o eleitorado e dinamizando a cidade do Recife. A reeleição dele, em 2024, deu-se com 78,11% dos votos válidos: um feito histórico!
Mas, voltemos ao tempo presente!
Todos sabem que o Carnaval do Recife vem sendo bem aproveitado como plataforma de visibilidade e engajamento durante as duas gestões do prefeito João Campos. Em 2024, homenageando os fazedores do bregafunk recifense, o prefeito resolveu platinar ou “nevar” o próprio cabelo, o que gerou enorme repercussão em todo o país. Conquistou milhares de novos seguidores e admiradores nas redes sociais digitais, quebrou o formalismo convencional do personagem político e passou a transmitir sua mensagem diretamente e sem intermediários para as massas.
Em 2026, provavelmente o último ano em que comandou a Festa de Momo na capital pernambucana, João continuou inovando. Recebeu o presidente da República no Galo da Madrugada, continuou a demonstrar seu entusiasmo com toda a festa e a cultura popularpernambucana através de danças e perfil mais jovial edespojado. Mas, introduziu também dois novos elementosà sua narrativa, que parecem fundamentais à nova etapa da trajetória política que se avizinha.
Em primeiro lugar, trabalhou o perfil de gestor público atento e que cuida de todos os detalhes, do começo ao fim da festa, mantendo controle total sobre a cidade (limpeza das ruas de madrugada, atendimento a mulheres e crianças, sistemas de segurança e videomonitoramento,apoio a prestadores de serviço e catadores, trânsito livre com artistas etc.). Transmitiu assim a imagem de que foi ele o principal responsável por todo o êxito da festa, orquestrando ampla e diversificada equipe.
Em segundo lugar, tornou visível a presença constante a seu lado da futura esposa – Tabata Amaral –, desde o Baile Municipal até o fim da festa. Isso trouxe à imagem do jovem prefeito a nova condição de pai de família, esposo, que está ainda mais amadurecido política, profissional e pessoalmente. Do João platinado ao João gestor e agora ao João família… As diferentes etapas vão sendo vividas e bem trabalhadas de forma quase natural, não fosse a ampla vantagem que as pesquisas eleitorais já divulgadas dão a ele, justamente nas faixas etárias dos 16 aos 34 anos e dos 45 anos acima, contra a própria Raquel Lyra. Ou seja, adolescentes e jovens adultos e os de meia idade para idosos atribuem a ele a preferência, sobretudo, as mulheres.
O casamento acontece amanhã na Praia dos Carneiros e será prestigiado por dezenas de políticos, com expectativa inclusive da presença do próprio presidente da República em exercício – Geraldo Alckmin (já que Lula está em missão internacional no Sudeste da Ásia) –, além de diversos ministros de Estado, senadores, deputados, prefeitos e lideranças partidárias de todo o Brasil. O casamento e o jovem casal que oficializa seu vínculo de união traz simbolismos políticos relevantes para Pernambuco e o Brasil. Assemelha-se, talvez, ao que Charles e Diana representaram para o Reino Unido: uma nova geração, casal formado por personagens públicos com diferentes trajetórias de ascensão ao poder e que traz ao imaginário coletivo mensagem de valorização da família, focando no cuidado e dedicação para com o povo,enfim, de esperança no futuro. Por tabela, essa nova condição gera sintonia direta com o modelo de família tradicional, tão sensível à direita. Coincidência ou não, esses simbolismos devem surtir efeitos políticos.
Aos que acompanham de perto as eleições vão lembrar claramente que o primeiro vídeo do guia eleitoral de Raquel Lyra no primeiro turno e o último guia do segundo turno em 2016, televisionado de Caruaru para todo o interior de Pernambuco, foi justamente em meio à família. Só para registrar o peso simbólico que isso tem sobre o eleitorado em nossa região.
A preparação para a renúncia ao comando da Prefeitura do Recife e o mergulho total na campanha para o governo estadual seguem assim um passo a passo: atravessou oCarnaval, que foi encerrado anteontem, e chegará ao casamento amanhã. Sem descuidar do simbolismo de umJoão Campos balançando a bandeira de Pernambuco em pleno Marco Zero do Recife, na última noite do Carnavaldeste ano, ao som da música “Anunciação”, de Alceu Valença, alardeando o famoso “Tu vens, tu vens, eu já escuto os teus sinais”. Música essa, aliás, que já foi muito usada pela própria campanha de Raquel Lyra ao governo do estado, em 2022, como contraponto ao tradicional “Nós somos madeira de lei que cupim não rói”, tão típica das campanhas do PSB em nosso estado.
Agora que o ano começou, de fato e de direito, além do confete e da serpentina da Festa de Momo teremostambém bolo de noiva. Diz o ditado popular que quem casa quer casa… Mas, em política, quem casa alianças quer governar. A conferir.


