Que dia é hoje? A Gata Maga do Leão do Norte e o nosso amor ignorante.

Por Raul Goiana* 06 de março é feriado em Pernambuco, por força da Lei nº 16.059 de 08 de junho de 2017, cujo projeto teve autoria dos então deputados estaduais Isaltino Nascimento e Terezinha Nunes, em alusão ao dia de nossa maior efeméride, o início da Revolução Pernambucana de 1817 também conhecida como “Revolução dos Padres”. Em […]
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Por Raul Goiana*

06 de março é feriado em Pernambuco, por força da Lei nº 16.059 de 08 de junho de 2017, cujo projeto teve autoria dos então deputados estaduais Isaltino Nascimento e Terezinha Nunes, em alusão ao dia de nossa maior efeméride, o início da Revolução Pernambucana de 1817 também conhecida como “Revolução dos Padres”. Em sua primeira celebração, no entanto, um fato inusitado tomou conta do imaginário popular. Em tempos de democratização do acesso à internet um áudio viralizou nas redes sociais e fez explodir uma profusão de memes, a voz anônima de uma popular vaticinou “é o feriado da Gata Maga”. Como a maior parte dos fenômenos virtuais a Gata Maga ganhou fama instantânea, arrefecendo com o passar dos dias e anos. Porém, a cada 06 de março seus miados roucos são ouvidos e nos descortinam um duplo e contraditório apanágio: somos apaixonados por nossa terra talvez na mesma intensidade com que ignoramos nossa história.

Enquanto pernambucanos somos assumida e orgulhosamente bairristas, carregamos a grandeza de quem de fato acredita que o Oceano Atlântico é formado a partir do desaguar conjunto dos Rios Capibaribe e Beberibe. “Eu vi o mundo… ele começava no Recife”, a célebre frase de Cícero Dias cristaliza nossa visão de mundo, são palavras que dão vazão a um sentimento. Se o mundo começou no Recife ou não eu deixo para você leitor – sobretudo de outras plagas – avaliar, mas que “a República é filha de Olinda” é um axioma que nem o mais antipernambucano (se existem, que seres tristes que devem ser…) pode contrapor. Quando hoje em tom ufanista propagamos aos quatro cantos “Pernambuco, meu país” possivelmente não nos damos conta de que isso é muito mais que um slogan, uma brincadeira ou característica da personalidade de quem teve o privilégio de nascer ou ser acolhido na terra dos altos coqueiros, é um fato histórico determinado. Pernambuco lutou para ser um país, proclamou uma república, criou uma bandeira, estabeleceu uma lei orgânica e ao longo de 75 dias fez do soberbo estendal o berço da implantação das ideias iluministas no Brasil.

Mas, o que sabemos muito além disso? Enquanto pernambucanos somos capazes de contar aos estrangeiros sobre os detalhes de como se deu esse processo? Sabemos que o movimento separatista foi responsável por atrasar a aclamação do rei Dom João VI em Portugal? Conseguimos explicar o pioneirismo do Areópago de Itambé e a forte influência da maçonaria no papel de propagar os ideais revolucionários que culminaram anos depois na Conspiração dos Suassuna que visava estabelecer uma república em Pernambuco com aproximação e proteção de Napoleão Bonaparte? Cruz Cabugá significa algo além de uma importante avenida na região central ligando Olinda e Recife? Entendemos que o imperativo descanso do dia de hoje celebra a coragem daqueles que, no passado, insatisfeitos com a dominação e os pesados encargos da condição colonial passaram do discurso à ação? Temos clareza que Barros Lima não é somente o nome de uma maternidade em Casa Amarela mas uma referência ao capitão que movido por ideais de um Pernambuco independente transpassou sua espada no comandante Barbosa de Castro gerando o estopim de uma guerra entre os pernambucanos e o Reino de Portugal? Somos cientes que na organização da república de Pernambuco foi estabelecida uma representação diplomática que se encarregou de viajar e falar em nome da Revolução e que em virtude disso um de seus embaixadores, o Padre Roma, foi assassinado pelo governador da Bahia quando de sua chegada a Salvador? Sabemos que foi em virtude dos acontecimentos deflagrados em 06 de março de 1817 que Bárbara de Alencar, sertaneja da região de Exu, se tornou a primeira presa política da história do Brasil por força de sua liderança e participação na expansão do movimento separatista às fronteiras de Pernambuco e Ceará? Reconhecemos a importância e o brio dos paraibanos, potiguares e cearenses que aderiram às nossas ideias e se juntaram as fileiras? Por fim, conhecemos o doloroso e sangrento processo de repressão posto em marcha pela Coroa Portuguesa contra nós e que culminou com o martírio de 14 de nossos mais valorosos líderes e com a mutilação do nosso território como forma de punição?

É possível que muitas das perguntas apresentadas acima te tragam dificuldades nas respostas. O quase cacófato da Gata Maga ilustra isso. Apesar de ser nossa maior data – do latim Magnus – a Data Magna ainda merece mais atenção de nossa parte, desconhecemos muito do que nos trouxe até aqui. Que o tão exercido amor por Pernambuco, presente nos nossos discursos e ações, seja proporcional ao interesse em conhecer suas razões. E longe de querer contar essa história que de tão grandiosa não cabe nestas rápidas linhas, aproveito o honroso convite feito pelo jornalista Elielson Lima para estimular aos meus compatriotas pernambucanos (e também aos estrangeiros) que busquemos estudar mais e defender nosso passado. Que encarnemos no presente o espírito de defesa e luta de nossos antepassados. Dito isso, viva Pernambuco e sua Revolução! 


*Mestre em História Social do Norte e Nordeste do Brasil pela UFPE

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