Por Lucas Arruda
Um dos pilares do Sistema Único de Saúde (SUS) é a equidade, para reduzir desigualdades em um país tão desigual. Isso passa pela adoção de políticas públicas robustas, mas simples gestos também entram na conta. E muitas vezes, o que pode parecer pequeno consegue mudar a realidade de comunidades inteiras. É o caso do Perímetro Irrigado do Bebedouro, em Petrolina, às margens do Rio São Francisco, onde um médico viu que parte dos pacientes precisava de um olhar mais atento na hora de prescrever receitas.
É às margens do Velho Chico, no Sertão de Pernambuco, que Lucas Cardim trabalha como médico da Família e Comunidade da UBS João Passos de Lima. A terra é de pescadores e agricultores. Gente que domina inúmeras tecnologias e saberes ancestrais, mas que, em certos casos, por necessidades ou falta de oportunidades, não se alfabetizou na idade certa, tem baixo letramento, ou ainda, possui algum défcit cognitivo.
Foi assim que Lucas, que também é jornalista por formação, decidiu trocar letras imprecisas pela sensibilidade dos desenhos.
“Eu já desenhava nas receitas, só que diante da pandemia a demanda ficou muito elevada e eu não estava conseguindo dar conta de desenhar, examinar, conversar. Então, eu falei para o Davi, preciso de alguma coisa que me permita continuar examinando e conversando com os pacientes, e que eu já posso entregar também um receituário para que eles revisem em casa. Criamos, inicialmente, uma plataforma com três ícones apenas: manhã, tarde e noite, sendo um café, um sol e uma lua. E a aceitação foi tão positiva que a gente quis mais”, conta.

Com o engenheiro de software Davi Rios, eles encontraram uma forma de sair do papel e ir para o digital, adicionando elementos como números e indicativo de hora, ícones mais elaborados, e até mesmo QR Codes capazes de levar a vídeos explicativos ou a mostrar no mapa a farmácia mais próxima – credenciada ao Programa Farmácia Popular – para compra do medicamento. Em casos como a aplicação de insulina, o receituário ainda conta com uma explicação sobre a forma correta.

“O hábito de desenhar já é algo muito comum. O que eu tentei fazer junto com o Davi foi transformar o que é exceção em um direito. Essas pessoas merecem ser cuidadas. Se a gente tivesse no país 40 milhões de pessoas que falassem outro idioma que não português, certamente as receitas seriam bilíngues. Então, por que não ofertar receitas com desenhos ou estruturas de comunicação que consigam auxiliar nesse contato com pacientes?”, questiona o médico.
De maneira gratuita, a plataforma “Cuidado para Todos”, feita com recursos próprios, está disponível na internet para qualquer profissional de saúde, já presente em municípios do Nordeste, do Sudeste e do Sul do país. Mas o sonho de Lucas é de que ela possa alcançar ainda mais pessoas por meio do SUS.

“Se a gente conseguisse implementar isso em escala nacional, aí sim conseguiríamos, de uma vez por todas, eliminar o não-letramento como uma barreira para o autocuidado e para o cuidado de pacientes que têm inteligências maravilhosas, que têm todas as capacidades, e que merecem ser vistos como pessoas capazes; que merecem receber o tratamento adequado com a comunicação correta”, sustenta.

No Sertão de Pernambuco, a união entre saúde, comunicação e tecnologia tem mudado a vida de inúmeras pessoas. Prova de que é possível transformar realidades a partir da simplicidade do olhar – ou do traço de um lápis de cor.


