Opinião | O Robô de Botina e o Fim do Achismo

Por Pedro Veloso Semana passada, fui surpreendido por uma cena que derrubou meu queixo até a altura do umbigo. Eu estava na varanda da sede de uma fazenda, tomando aquele café que é 50% cafeína e 50% petróleo, observando um produtor que vou chamar de Seu Cláudio. Seu Cláudio é um sujeito na casa dos […]
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Por Pedro Veloso

Semana passada, fui surpreendido por uma cena que derrubou meu queixo até a altura do umbigo.

Eu estava na varanda da sede de uma fazenda, tomando aquele café que é 50% cafeína e 50% petróleo, observando um produtor que vou chamar de Seu Cláudio.

Seu Cláudio é um sujeito na casa dos 50 e muitos anos, daquele tipo que tem a pele curtida de sol e a mão grossa de quem pegou no pesado a vida toda. É a personificação do agro raiz, aquele que a gente imagina que só confia no calendário de papel e na dor no joelho para prever chuva.

No meio do silêncio, ele sacou o celular e começou a brigar com a tela. Franzi a testa, esperando que ele fosse reclamar do preço do adubo ou mostrar foto de bezerro em grupo de whatsapp.

Ledo engano. Ele estava apanhando de uma planilha de pagamentos que não fechava nem por decreto. Foi aí que ele me soltou a bomba: confessou, sem cerimônia, que estava “conversando com o aplicativo” — a tal da Inteligência Artificial — para pedir ajuda na fórmula matemática.

Aquilo foi um tapa na cara do meu preconceito. A gente tem a mania feia de achar que tecnologia é coisa de jovem da cidade, que usa tênis colorido e toma café gelado em copo descartável.

Mas no campo, a banda toca diferente. O produtor rural não adota tecnologia por modismo ou para postar no Instagram. Ele adota por necessidade e sobrevivência. Seu Cláudio percebeu o que muita gente ainda não viu: a Inteligência Artificial no agro não veio para escrever poesia. Ela veio para fechar a conta.

E quando a gente sai da tela do celular do Seu Cláudio e olha para a lavoura, a coisa fica digna de filme de ficção científica.

Antigamente, o monitoramento de pragas era feito no olhômetro. O sujeito andava no meio do mato, suava a camisa, olhava meia dúzia de plantas e tentava adivinhar como estava o resto do talhão. Era uma amostragem baseada na fé.

Hoje, a conversa mudou de nível. Já existem sistemas onde drones e tratores se conversam. O equipamento passa, a câmera identifica onde tem uma planta daninha no meio da cultura e dá a ordem para o trator pulverizar apenas naquele alvo. É a troca da metralhadora giratória pelo tiro de sniper.

Claro, precisamos colocar os pés no chão. Eu sei que essa realidade de filme, com robôs autônomos e drones futuristas, vai demorar para chegar em todos os rincões do Brasil. O interior é grande, a conectividade ainda falha e o custo do maquinário de ponta assusta até quem tem o coração forte. Não é amanhã que todo mundo vai ter um trator que dirige sozinho.

Mas a tecnologia não chega só em forma de ferro e pneu, ela chega em forma de inteligência. E essa já está batendo na porta.

Mesmo sem o trator mais moderno do mundo, o acesso a modelos que analisam o clima com precisão ou algoritmos que ajudam a prever o melhor momento de venda já é uma realidade acessível. A revolução começa no bolso, dentro do celular, antes de ir para o pátio de máquinas.

Acabou a era do “meu avô fazia assim”. O avô do produtor tinha margem para errar. A terra era barata, o insumo era barato. Hoje, errar o timing do plantio ou a dose do adubo baseando-se apenas na intuição é assinar o atestado de óbito financeiro da propriedade.

​O que aprendi com o Seu Cláudio é simples: saudosismo é uma doença cara.

​O produtor que insistir em gerir a propriedade apenas no achismo, ignorando que existem ferramentas para processar melhor as informações e dados, findará no mesmo destino de quem insistiu na máquina de escrever quando o computador chegou: virar peça de museu.

A Inteligência Artificial não vai substituir o homem do campo. Mas o produtor que usa a inteligência dos dados vai, com certeza, engolir o produtor que ignora a modernidade.

No fim das contas, a planilha do Seu Cláudio foi resolvida em segundos pelo robô. Ele guardou o celular e voltou a falar sobre a chuva, provando que o futuro do agro não pertence apenas a quem tem a melhor terra, mas a quem sabe fazer as melhores perguntas.

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