Em 6 de março, Pernambuco celebra o marco da Revolução de 1817, quando contra o domínio português nos tornamos um país por 74 dias. A Data Magna reforça os ideais e elementos que constituem a “pernambucanidade” presente em cada um que entende o estado como sua terra, tendo nascido aqui ou não.
Como representação de um povo, a bandeira de Pernambuco é, de longe, um dos símbolos mais presentes no imaginário dos pernambucanos – que fazem questão de levá-la a todos os cantos do planeta. Ela está presente em placas, em roupas, fantasias de carnaval e até tatuagens. São cores e elementos encontrados no coração de mais de 9 milhões de brasileiros.
Mas você sabia que a bandeira de Pernambuco passou por um processo recente de normatização?
Em uma pesquisa para outro projeto, durante a pandemia da Covid-19, em 2020, o designer Pedro Alb Xavier percebeu um fato: até aquela data, cada um representava a bandeira como queria. Inclusive, por meio de fotografias, ele identificou que as bandeiras de Pernambuco dentro e fora do Palácio do Campo das Princesas, sede do Executivo estadual, eram diferentes.

O repórter Lucas Arruda conversou com Pedro, que contou um pouco mais sobre o processo de normatização e a importância da bandeira para a identidade do pernambucano.
A bandeira de Pernambuco, por Pedro Alb Xavier
Lucas Arruda: Pedro, eu gostaria que você explicasse como ocorreu a normatização da bandeira de Pernambuco?
Pedro Alb Xavier: A gente tem que recuperar um pouco de onde vem essa bandeira. Essa bandeira vem da Revolução de 1817 que dura alguns dias. Quando a revolução é perdida pelos revolucionários, nós ficamos sem uma bandeira própria. Nós ficamos usando o galhardete do Porto. E aí, em 1917, já na República, durante o centenário, por recomendação do Instituto Arqueológico Histórico Geográfico Pernambucano (IAHGP), nós retomamos a bandeira de 1817 como a bandeira oficial do Estado. Existe um ato publicando ela e dois selos dos Correios que saem com a imagem dela: um colorido e um só em tons de azul.
A lei de 1917 (Decreto Estadual 459/2017) era muito vaga. Ela dizia que era uma bandeira igual à bandeira revolucionária, mas, em vez de ter três estrelas, tinha somente uma, porque cada uma das estrelas da bandeira revolucionária era um dos estados, as províncias, que participaram da revolução: Pernambuco, Paraíba e Rio Grande do Norte. E, como a bandeira se tornava a de Pernambuco, no arco-íris só havia uma estrela.
Então, a descrição era basicamente uma estrela, um arco-íris, um sol sobre um fundo azul, uma parte branca embaixo, com uma cruz vermelha por sobre essa parte branca. Então, o povo e o uso dela, durante o século XX, foram sendo feitos de modo muito próprio para cada pessoa, para cada instituição. A bandeira de 1817 tinha o arco-íris vermelho, amarelo e branco. As pessoas começaram a colocar o verde no lugar do branco.

Durante a pandemia, em 2020, eu estava em casa — sou designer — e estava fazendo uma justificativa de uma outra marca que usava elementos da bandeira do Estado. Nessa justificativa, eu tinha que avançar um pouco sobre os documentos históricos para dizer de onde vinham os elementos, símbolos.
E percebi que havia inconsistências nas próprias fotos oficiais do Estado. Atrás do então governador, dentro do Palácio, havia uma bandeira com um desenho determinado de sol. Em frente ao Palácio, havia outra bandeira com outro desenho de sol. Os elementos principais eram os mesmos, mas o desenho refinado de cada uma delas era um pouco diferente.
Em frente à Universidade Federal de Pernambuco (UFPE), havia uma bandeira levemente diferente. Na Assembleia Legislativa de Pernambuco (Alepe), também era outra bandeira. Se você ‘der um Google’ pela bandeira de Pernambuco, até hoje você vai ver que existem vários tons de azul, vários tons de vermelho, amarelo, verde. Vários desenhos de sol com pontas curvas, pontas retas. O número de pontas do sol também varia muito.
Eu pensava que um elemento tão importante como esse teria um manual de marca, uma normatização profunda. Comecei a buscar e não encontrei. Isso em uma semana. Fui buscando quase de modo autônomo e criei uma publicação no Instagram dizendo da minha dúvida, perguntando se alguém sabia onde é que tinha a informação correta. Porque eu tinha certeza, naquele momento, que só não sabia onde encontrar a informação correta.
Uma colega minha que pertence ao IAHGP viu minha postagem e pediu para eu entrar em contato com os historiadores do instituto que têm mais conhecimento: Silvio Amorim e George Cabral, que haveriam de responder aquela minha dúvida. Entrei em contato, eles disseram que iam buscar.

Quando voltaram para mim, disseram que não havia realmente uma normatização detalhada da bandeira e fizeram a proposta de submeter um projeto de lei, já que o instituto havia submetido também, junto com o governador, em 1917. Agora, a normatização apurada, com desenho oficial, em 2020.
E foi assim que a gente fez: o projeto de lei foi submetido à Alepe e se tornou a normatização oficial detalhada, com cores definidas, com desenho sistematizado e detalhado no projeto de lei. A partir daí, nós temos esse desenho oficial, o que não impede que as pessoas façam seus desenhos, se apropriem da bandeira de Pernambuco no mundo.
É somente um desenho para usos oficiais, institucionais, diplomáticos e que regulamenta esse símbolo tão caro à nossa memória.
P.S – Após a entrevista, Pedro Alb Xavier fez questão de pontuar que quem lhe ajudou na redação da lei foi o procurador do Estado de Pernambuco Marcelo Casseb.
L.A: Então, Pernambuco já foi representado por duas bandeiras?
P.A.X: A gente pode tratar isso como quantos símbolos, de modo independente, já representaram Pernambuco. A primeira pessoa que representa Pernambuco de modo independente é o brasão de Duarte Coelho. E depois a gente passa por algumas representações durante o período da ocupação holandesa. As bandeiras da Revolução de 17 e da Revolução de 24, o galhardete do Porto e, finalmente, a retomada da bandeira de 1817 com algumas modificações. Ao todo, nós temos cerca de nove elementos de representação para o estado de Pernambuco enquanto território, entre brasões e o que a gente entende como bandeira oficialmente – esse elemento retangular hasteado.
L.A: Pedro, e quais são, de fato, os elementos oficiais da Bandeira de Pernambuco?
P.A.X: Os elementos que constituem a nossa bandeira, simbolicamente, estão divididos entre elementos de cor e elementos gráficos. A nossa bandeira tem as cores azul, vermelho, branco e amarelo. E aí essas cores vão tentar se associar às cores da Revolução Francesa e da bandeira francesa: são azul, branco e vermelho. Como a nossa revolução tinha forte inspiração no iluminismo francês, essas cores foram usadas na nossa bandeira também.
Posteriormente, como tinha falado, no século XX, as pessoas, se apropriando da bandeira, trocaram o branco pelo verde. E isso deu um outro aspecto de incorporação a um fazer popular dessa bandeira.
Enquanto elementos gráficos, mais notadamente, nós temos uma estrela no topo, que representa o estado de Pernambuco; um arco-íris com três faixas, e cada uma dessas faixas representa uma palavra: amizade, paz e união.
O sol, que está por baixo desse arco-íris, ainda sobre o azul, é representa o pernambucano como filho do sol. Esse lugar tropical em que nós estamos é a justiça que brilha, ou deveria brilhar, sobre todos de modo igual.
A cruz, apesar de alguns dizerem que está lá porque foi idealizada por um padre, essa cruz é uma representação do primeiro nome do Brasil: Terra de Santa Cruz. Então, apesar de ser uma revolução que cria um estado independente desse território brasileiro, a ideia dela não era se separar do Brasil. Era trazer o Brasil para ela, tanto que o número de estrelas seria aumentado quantos fossem os territórios que se juntassem à revolução.

L.A: Pedro, você tem consciência de que deixa um legado com a normatização da bandeira de Pernambuco. Como se sente?
P.A.X: É uma uma sensação de extrema realização enquanto pernambucano orgulhoso, que eu acho que nós vamos nos tornando enquanto tomamos consciência do legado deixado pelas pessoas que por aqui passaram. O importante são os ideais que Pernambuco carrega, e eu fico muito feliz, me vejo ainda mais ligado a essa memória.
Essa bandeira, o elemento gráfico que é essa bandeira, ele só atesta um ideal que é muito maior do que esse elemento isolado. São ideias que a gente vai incorporando na nossa vida, na ética de viver como pernambucano, e que permite que a gente abrace o novo e reconstrua essa bandeira conforme novas demandas por direitos que aparecem. É uma bandeira de eterna luta.
Tem uma história que eu acho muito curiosa sobre essa bandeira. Quando a gente vai reconstituir o momento em que ela é hasteada, em 21 de março de 1817, as pessoas olham para ela e perguntam: ‘Esse sol, ele tá nascendo ou se pondo?’. Então, as pessoas já começam a criar uma história em cima dessa bandeira. É uma narrativa em cima desse céu que se apresenta ali.

E é isso que a gente faz hoje, trazendo as nossas colocações dessa paisagem, desse sol que nasce, dessa noite que vem, ou dessa noite que vai, nessa esperança do arco-íris. Depois ou antes de uma grande chuva. E a gente vive essa história, a gente vai se unindo à história dessa bandeira. Ela permite que a gente crie narrativas pessoais e coletivas. Esse arco-íris, por exemplo, é confundido com movimentos LGBTs hoje, e isso era impensável na sua criação. Mas hoje a gente incorpora esses valores. É uma bandeira que nos permite vivê-la diariamente através do passado, do presente e pensando no futuro.


