Opinião | O passaporte da boiada e a nova cara do “Made in Paraguai”

Por Pedro Veloso Sexta-feira à noite, jantar rolando solto num restaurante aqui da cidade. O clima era de confraternização, com uma boa carne na mesa e o garçom fazendo o balé das bebidas. Do meu lado direito, um amigo empresário que há anos ganha a vida importando mercadorias do Paraguai. Do lado esquerdo, um pecuarista […]
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Por Pedro Veloso

Sexta-feira à noite, jantar rolando solto num restaurante aqui da cidade. O clima era de confraternização, com uma boa carne na mesa e o garçom fazendo o balé das bebidas. Do meu lado direito, um amigo empresário que há anos ganha a vida importando mercadorias do Paraguai. Do lado esquerdo, um pecuarista de mão cheia que, para minha surpresa, revelou entre um gole e outro que agora tira boa parte do seu sustento criando boi exatamente do lado de lá da Ponte da Amizade.

Durante muito tempo, o nosso imaginário urbano se acostumou a tratar o “Made in Paraguai” como sinônimo daquele pendrive que prometia 256gb a um custo duvidoso e quebrava no segundo uso, ou daquele uísque que dava dor de cabeça antes mesmo do primeiro gole. Mas, escutando a conversa daqueles dois e fazendo as contas de guardanapo, percebi que a piada envelheceu mal e que a dor de cabeça, hoje, é toda nossa. A risada saudosa sobre a época da muamba morreu na hora em que o pecuarista me explicou a sua operação. Ele não cruzou a fronteira para comprar eletrônico barato; ele foi buscar margem de lucro. E não está sozinho. Tem uma legião de brasileiros carimbando o passaporte da boiada, fugindo de um sócio oculto e guloso que a gente conhece intimamente: o tal do Custo Brasil.

Vamos traduzir isso do “economês” para a língua de quem sofre no balcão do banco. A lógica da debandada é implacável. Hoje, devido à nossa taxa de câmbio e à dinâmica do mercado internacional, a arroba do boi no Paraguai costuma valer uns bons dólares a mais do que a nossa. Mas o pulo do gato não está só na etiqueta de venda, está no chão de fábrica. Produzir essa mesma arroba nas nossas terras custa dezenas de reais a mais do que na fazenda do vizinho guarani. É um abismo de custos.

E para colocar a cereja nesse bolo indigesto, eles montaram uma estrutura fiscal que é um verdadeiro tapete vermelho para o investidor: o famoso modelo do “dez, dez, dez”. É uma alíquota baixinha e cravada para o imposto de renda, outra igual para as empresas e a mesma proporção para o consumo. Enquanto o produtor brasileiro passa quase um terço do ano trabalhando só para sustentar uma máquina pública pesada e confusa, o vizinho paraguaio paga seus impostos sem precisar de calmante e reinveste a sobra na própria fazenda.

Isso significa que devemos apagar a luz, entregar as chaves da porteira e ir todos aprender a falar portunhol? Calma lá. É aqui que entra o choque de realidade para quem ficou, e onde mora a nossa maior esperança.

Se a gente der um zoom na operação, o Brasil ainda dá um banho monumental da porteira para dentro. A nossa genética, o nosso manejo rotacionado de pasto e a nossa tecnologia de nutrição no cocho são coisas de ficção científica para boa parte do planeta. Nós produzimos muito mais carne por hectare do que eles. A biologia e a agronomia brasileira jogam a Champions League. O produtor brasileiro sobrevive — e ainda lidera o mercado global — porque é teimoso e tecnicamente brilhante, tirando leite de pedra para compensar a ineficiência do Estado.

O nosso gargalo crônico é, e sempre foi, da porteira para fora. A burocracia sufocante, a infraestrutura capenga e a carga tributária transformam a nossa “Ferrari agronômica” num carro de boi assim que a carga encosta na rodovia. O êxodo de produtores para o país vizinho não é um atestado de óbito do nosso agronegócio, mas um alarme de incêndio que a gente precisa ouvir.

O Brasil é, e continuará sendo, a maior potência verde do mundo. Temos sol, terra e, principalmente, gente de botina suja que sabe fazer chover no pasto. A grande lição que o Paraguai nos ensina hoje não é sobre criar gado, é sobre criar um ambiente de negócios que não castigue quem produz. O produtor brasileiro já faz o milagre diário sob o sol quente. O que a gente precisa agora é que as regras do jogo deixem de ser um fardo e passem a ser uma ponte.

Garçom, traz a conta! — e vamos torcer para o imposto não vir cobrando o preço de um bezerro.

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