Projeto no Sertão do Pajeú eleva capacidade de diagnóstico da doença de Chagas

Resultados alcançados pelo Projeto IntegraChagas-Brasil foram apresentados na Alepe, nesta quinta (9)

Por Lucas Arruda

No Sertão do Pajeú, uma cidade tem alcançado resultados positivos para superar um problema histórico: a subnotificação dos diagnósticos de doença de Chagas. Em Iguaracy, município com pouco mais de 11 mil habitantes, o Projeto IntegraChagas-Brasil, do Ministério da Saúde, financiado pela Fiocruz, conseguiu diminuir o tempo e a burocracia para identificar se o organismo tem a presença do parasita, transmitido pelo inseto popularmente conhecido como barbeiro. A iniciativa foi apresentada nesta quinta-feira (9), em audiência pública na Assembleia Legislativa de Pernambuco (Alepe).

A doença de Chagas foi descoberta pelo médico e pesquisador Carlos Chagas, em 1909, e se engana quem pensa que ela ficou no século passado. No Brasil,  estima-se que cerca de 5 milhões de pessoas tenham a doença em seu estágio crônico, ou seja, tendo passado anos ou décadas após o contato inicial. Alguns pacientes não apresentam sintomas, mas parte significativa dos casos resulta em aumento no coração, no esôfago ou no cólon. É o que destaca a coordenadora do projeto Integra-Chagas Brasil, Eliana Amorim.

“Muitas pessoas têm a doença e não sabem que tem. Muitas delas precisam de marca-passo, transplante cardíaco e, infelizmente, muitos morrem. Por isso, a necessidade de um diagnóstico precoce para instituir o seu tratamento adequado”, pontuou.

E foi com base em dados para conseguir ampliar o acesso ao diagnóstico que o projeto escolheu Iguaracy como ponto de partida em Pernambuco, com a garantia de apoio do estado e do município.

A cidade apresenta taxa de mortalidade por doença de Chagas quase quatro vezes maior que a nacional (11,5 por 100 mil/hab. contra 3,1 por 100 mil/hab.), dentro de uma região marcada pela influência da infecção: o Sertão do Pajeú – predominantemente rural, mas com impactos crescentes das mudanças climáticas e de migração humana para o ambiente urbano. Esses fatores também levam à disseminação da doença.

Pelo projeto, quase 58% da população de Iguaracy foi submetida a um teste rápido cujo resultado sai em cerca de 15 minutos e pode ser feito em qualquer lugar. A estratégia elimina a necessidade de que o sangue coletado para exame seja levado a um laboratório no Recife, por exemplo, acelerando o diagnóstico, e por consequência, o início do tratamento. 

Em menos de um ano, a iniciativa alcançou 265 resultados positivos na cidade, sendo a maioria das vítimas mulheres, pessoas com o ensino fundamental incompleto e moradores do ambiente rural. Também chama a atenção o dado de que, das 2 mil casas visitadas pelos agentes e pesquisadores, o barbeiro foi encontrado em 5% delas. Cerca de 16% dos insetos estavam positivados para a presença do parasita. 

Números que têm rosto e voz, como Manoel França, de 63 anos. Morador de Iguaracy, ele é membro da Associação de Pessoas com Doença de Chagas do Sertão do Pajeú, 27 anos após ter sido diagnosticado com a doença. Agricultor e de fala simples, Sr. França contou à reportagem da CBN Recife que demorou mais de 10 anos para dar início ao tratamento. 

Da direita para a esquerda, Sr. França é o segundo na composição da mesa – Lucas Arruda/CBN Recife

“Eu era doador de sangue, e fui por muitos anos. Um dia recebi uma carta do Hemope para comparecer à unidade de Caruaru. Quando cheguei lá, recebi a carta dizendo que estava com doença de Chagas e não podia mais ser doador. Eu levei aquilo numa brincadeira e passei 11 anos sem me cuidar. E quero dizer ao povo que, quem tiver a doença de Chagas não fique pensando que não mata, porque ela mata, mas se não cuidar”, alertou.

Hoje, Sr. França é assistido pela Casa de Chagas, vinculada ao Procape/UPE, no Recife, e trata do crescimento do esôfago. O idoso foi um dos ouvidos na audiência pública promovida pela Comissão de Finanças da Alepe, por proposição do deputado Rodrigo Farias (PSB). 

“Nós fomos procurados por moradores e pesquisadores do Sertão do Pajeú, uma região considerada endêmica, para botar o holofote e trazer esse debate da doença de Chagas para a casa do povo de Pernambuco. O projeto fez um trabalho específico no município de Iguaracy, que virou referência, e a gente vai querer também espalhar para que todo o Sertão do Pajeú repita esse trabalho”, sugeriu.

Além da ampliação, há perspectiva de que, em alusão ao dia 14 de abril, marcado pela conscientização mundial sobre o tema, uma data seja incluída no calendário oficial de Pernambuco. Mais do que a simbologia, a iniciativa carrega a necessidade de ampliação do cuidado às vítimas da doença de Chagas em Pernambuco.

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