Maio, o mês que anuncia a chegada do inverno.
Sempre foi sinônimo de alívio para os moradores da minha cidade — o momento em que o calor cedia e o asfalto deixava ondular diante dos olhos. Mas não em 2022. Naquele ano, a chuva deixou de ser alívio e virou sentença: 145,53 mm em um único dia já haviam marcado 1975; em 2022, foram mais de 200 mm em apenas 24 horas. Mais uma vez, perdemos. Perdemos diversas vidas, perdemos casas e ficamos no escuro por mais de 10 horas — mas, acima de tudo, perdemos uma parte de nós.
Vimos a calamidade entrar em nossas casas sem sequer bater à porta. Ela tomou salas, quartos, memórias. E, junto a ela, veio o abandono: éramos manchete em todos os jornais do país e, ainda assim, ninguém veio.
Porém, o céu abriu — e, mais uma vez, nos reerguemos. Sozinhos. Estamos em 2026, e maio novamente começa anunciando o caos que o inverno trará. É impossível não sentir o peso ao ver uma nuvem escura pairando sobre nós. As lembranças não desapareceram; estão enraizadas em nosso peito.
Temos tecnologia suficiente para prever inundações e alertar com antecedência, mas não temos o mais importante: tempo. Nunca conseguiremos domar aquilo que não se permite ser dominado — e maio, mais uma vez, se inicia como uma corrida contra o tempo.
Precisamos de todo o suporte possível para atravessar dias cinzentos. Mas, se há algo que 1975 e 2022 nos deixaram, é a certeza de que sempre ressurgiremos — provando que somos maiores do que todas as adversidades.
Apesar de todo o caos e medo que caminha ao nosso lado em dias assim, os esperança, não há nada mais recifense que isso. Nossa cidade carrega história suficiente para nos provar que esse povo sempre se levanta
Ainda há mais chuva prevista para os próximos dias, mas escrevo isso hoje — porque hoje o céu abriu.
Paulo Rafael é autor do livro: O Coração e o Tinteir


