Na Rua do Futuro, no bairro das Graças, na Zona Norte do Recife, uma instituição atua, há 40 anos, prestando um serviço sensível e fundamental não somente ao estado de Pernambuco – mas para toda a humanidade. “Ser uma casa” é a missão do Núcleo de Apoio à Criança com Câncer (NACC), que em plena atividade impressiona pelos números, mas sobretudo, emociona pelo cuidado e carinho com quem vê a vida virar da noite para o dia.

Por fora, o prédio até pode não ser reparado por quem passa às pressas em uma região de grande fluxo de veículos. Quem percebe, talvez até se interesse em descobrir mais sobre o que é feito naqueles dez andares. Mas é somente conhecendo de perto que se pode compreender, com clareza, a importância que o NACC tem.
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Origem
Como uma ideia do oncologista pediatra Dr. Francisco Pedrosa, que à época trabalhava no Hospital Barão de Lucena, no Recife, o NACC surgiu em 1985 para apoiar as crianças em tratamento de câncer e seus responsáveis vindos de outras cidades do estado. O médico percebeu que o índice de abandono do tratamento era muito alto, porque, necessariamente, sair em busca da cura de um filho era deixar uma família inteira a quilômetros da capital.
Foi então que um grupo de amigos se juntou para fazer a ideia sair do papel e ganhar contornos de pedra e cal. Com tempo e cada vez mais ajuda, diante da preciosidade do trabalho, o NACC passou a perceber que, além da estrutura física, era preciso investir na promoção da dignidade humana em outras áreas, desde a nutrição até as brincadeiras. Não deu outra: o índice de cura das crianças e adolescentes atendidos pela ONG chegou a 90%.
Quem tem a missão de gerir é Arli Pedrosa, diretora presidente da ONG e que acompanha a evolução da instituição desde o fim da década de 1980. Diante da grandiosidade dos serviços, ela aprendeu que, para lidar com os desafios do dia a dia, é preciso confiar. Foi assim para construção da sede atual do NACC, é assim para todo obstáculo que no meio do caminho aparece.
“A primeira coisa que eu digo é que desafio a gente tem que transformar em oportunidade. Se a gente não pensasse dessa forma, essa casa aqui já tinha fechado há muito tempo. O que é prioridade vai entrar na lista de pagamento. O que não é, vou procurar uma doação. E na hora que essa doação entrar, eu vou fazer. E quem chega aqui, recebe mais do que ele doa”, aponta.
Assistência
Algo que pode ser visto em números. Até o primeiro trimestre, 281 pessoas foram assistidas pelo NACC. Isso representa 12 mil refeições, que são servidas seis vezes ao dia; além de quase 10 mil fraldas. Cerca de 44% dos albergados vêm do interior do estado de Pernambuco, e 7% são os que saem de outros estados, como Paraíba e Bahia, para se tratarem nos hospitais especializados na capital pernambucana. E por consequência, encontram na ONG muito mais do que um lar.
Em 2021, o mundo de Luciana Santana, de 43 anos, natural de Pesqueira, no Agreste de Pernambuco, mudou completamente. Foi quando ela descobriu que a pequena Maria Helena tinha leucemia. Em busca da cura, teve que deixar a terra natal e os outros dois filhos com o esposo e a mãe em direção à capital. Ela conta que, desde então, sempre teve o apoio do NACC.
“Nesse momento ela está com as taxas baixas, então tem o risco de ter uma febre ou um sangramento. E vir de lá (Pesqueira) para cá (Recife) é muito arriscado. Então, eles (o hospital) pedem para a gente ficar aqui no NACC, porque é mais perto do hospital, para caso tenha alguma intercorrência. Aqui a gente se sente bem, encontramos muitas outras famílias, outras crianças. Vamos trocando experiências”, contou.
Enquanto o repórter atrapalhava o lazer na brinquedoteca e se metia a fazer perguntas para a mãe, a pequena Maria Helena assumiu o papel de câmera e registrou tudo – como quem tem a sabedoria de que, lá na frente, poderá olhar as imagens e sorrir.
Antes da entrevista, Luciana colaborava organizando o bazar do NACC, uma das fontes de recurso da instituição. Projetos pontuais, como a participação na Feira Nacional de Negócios do Artesanato (Fenearte), e as doações completam as principais formas de captação de recursos.

Voluntariado
Para que o trabalho possa ser tocado com maestria, o NACC conta com uma rede de voluntários muito especial. Ao total, são 85 ativos distribuídos nas mais variadas funções. A reportagem da CBN Recife acompanhou a recepção de novos 23 voluntários – um momento realizado a cada três meses, onde eles puderam conhecer melhor sobre a ONG, tirar dúvidas e identificar onde podem contribuir da melhor forma.

A diretora Arli Pedrosa conta que, por essência, o NACC é uma instituição voluntária – inclusive na gestão. Os funcionários da ONG ajudam a conduzir o trabalho e organizar as ações onde os voluntários atuam. Com o avanço das redes sociais, muitos chegam a partir da divulgação do trabalho do NACC na internet.
“Eu acredito que a força motriz dessa instituição é o aporte voluntário. Lógico que a gente tem que ter funcionários em cada área. Mas sem o voluntário, fica difícil funcionar. Toda parte da logística de levar as crianças ao cinema, para o teatro… vão um funcionário e um voluntário, que sempre está em qualquer atividade. Inclusive, ele fica à vontade para escolher onde pode contribuir, mas tem que ter frequência e comprometimento”, ressalta.
Um dos 85 voluntários é o psicanalista Lula Couto, que está no NACC há aproximadamente 11 anos. Ele conta que começou participando de atividades lúdicas para as crianças, mas ao longo do tempo, percebeu que as acompanhantes precisavam de uma atenção especial. Há 8 anos, foi criado o projeto “Alô, quem fala?”, como uma porta aberta para o reconhecimento do outro.
“A proposta era de fazer uma uma escuta coletiva, onde cada uma iria de alguma forma tentar se apresentar para outra colega. Qual é a sua história? Onde ela nasceu? Como é que era a vida na infância? À disposição para colocar o que elas quisessem. Foi assim que a gente começou a perceber que esse reconhecimento, a partir do nome delas, é importante, porque é uma convenção serem chamadas como ‘as acompanhantes das dos pacientes’ por onde passam aqui no Recife. Eu sempre dizia: ‘olha, aqui vocês não são acompanhantes apenas’. Vocês são Maria, vocês são Severina… A valorização da subjetividade, da individualidade de cada um”, detalha.
Momentos que permitem que as mães externem seus medos, angústias e dificuldades. Mas sobretudo, que não se sintam sozinhas – muitas vezes, tão distantes dos seus. O que mostra que o suporte dado pelo NACC às crianças com câncer e familiares vai além da estrutura: é sobre dignificar a vida, mesmo diante daquilo que ela apresenta como barreira.

Da direção ao voluntariado, há 40 anos, o NACC é responsável por mudar histórias. Na Rua do Futuro, tem gente trabalhando diariamente para que, quem hoje luta pela vida, possa ter um amanhã melhor.
Edição: Daniele Monteiro
Produção e Reportagem: Lucas Arruda


