Milhões de pessoas neurodivergentes em todo o mundo vivem diariamente o desafio de se adaptar a ambientes que ainda valorizam a “normalidade” como sinônimo de aceitação. Desde cedo, aprendem a conter gestos, falas e interesses para se encaixar em padrões sociais e profissionais que nem sempre acolhem a diferença. Esse comportamento, conhecido como masking ou camuflagem social, tem sido apontado por pesquisadores como um dos principais fatores de desgaste emocional entre pessoas no espectro autista, com TDAH ou outras condições neurodivergentes.
“O masking é uma tentativa de sobrevivência emocional em contextos que não reconhecem plenamente a diversidade neurológica”, explica Geórgia Menezes, psicóloga, mestre e doutoranda em Psicologia pela UFPE e sócia do Instituto Harmonia e Neurodiversidade (IAN). “O cérebro, ao perceber que suas formas naturais de expressão não são bem-vistas, cria estratégias para passar despercebido, evitando críticas, exclusão e constrangimento. Mas essa adaptação cobra um preço alto, físico, psíquico e individual”, destaca.
As pesquisas científicas confirmam o alerta. Estudos internacionais associam a prática do masking a níveis elevados de ansiedade, depressão, burnout e até ideação suicida. O esforço constante para monitorar expressões faciais, tom de voz e contato visual, ou para esconder gestos de autoestimulação, leva ao esgotamento e à perda do senso de identidade.
Em diferentes fases da vida, o disfarce assume formas distintas:
Na infância, a criança percebe que precisa conter comportamentos espontâneos para ser aceita.
Na adolescência, o desejo de pertencer intensifica a camuflagem, em meio à pressão social por “ser igual aos outros”.
Na vida adulta e no trabalho, o esforço para parecer neurotípico se transforma em uma performance diária de autocontrole e cansaço invisível.
“O masking é o reflexo de uma sociedade que exige normalidade como pré-requisito para o pertencimento”, destaca Geórgia. “E, ao fazer isso, ela invisibiliza a beleza da diferença”, afirma.
Segundo a psicóloga, o processo de “descamuflagem”, ou seja, de retirar essa máscara social, é uma jornada profunda de autoconhecimento e aceitação. “É preciso compreender o próprio funcionamento neuroatípico não como erro, mas como expressão legítima da diversidade humana”, reforça.
Geórgia defende que o caminho para ambientes mais saudáveis e inclusivos passa por três pilares: autoconhecimento, acolhimento estrutural e pertencimento genuíno. Escolas, universidades e empresas precisam se tornar espaços neuroafirmativos, onde diferentes formas de pensar, aprender e sentir sejam reconhecidas e valorizadas. “A verdadeira inclusão não exige que o indivíduo mude sua essência para caber em um padrão. Ela exige que a sociedade amplie sua escuta e sua empatia”, afirma. “Cuidar é acolher o que é genuíno. Pertencer é poder existir sem disfarces, e descamuflar-se é, acima de tudo, um ato de coragem e libertação”, finaliza.
Especialista fala sobre como o esforço de se encaixar afeta a identidade neurodivergente
A busca por aceitação pode levar pessoas neurodivergentes a esconder quem realmente são, um processo que afeta autoestima, saúde mental e pertencimento
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