Por Antônio Marcos – Caruaru
Quem passa pelas festas de São João no Nordeste, especialmente em Pernambuco, já sabe: o festejo não está completo sem o estrondo que faz a terra tremer! Mas se engana quem pensa que o barulho dos bacamarteiros se restringe a isso. É história, é herança e é a pulsação viva da cultura brasileira.
Vestidos com seus trajes de brim cáqui, lenços coloridos e chapéus de couro que remetem ao cangaço e a vida sertaneja, os batalhões de bacamarteiros carregam nas mãos uma tradição secular. O bacamarte, arma antiga do cano longo, hoje não dispara chumbo, apenas pólvora seca. O objetivo é celebrar a fartura da colheita, homenagear os santos juninos e manter viva a memória de um povo.

Para o historiador José Urbano, a importância dos bacamarteiros vai muito além do espetáculo visual e sonoro: eles são guardiões de uma identidade: “os batalhões de Bacamarteiros são registrados na história do Brasil durante o conflito do nosso país contra o Paraguai. Finalizada a guerra, vários deles vieram aqui para o Nordeste e tiveram a iniciativa de serem inseridos no folclore regional. As apresentações dos batalhões carregam uma coreografia específica, e a musicalidade não poderia ser outra: o nosso forró”, detalhou.
O São João de Caruaru, na Agreste de Pernambuco, conhecido como o maior e melhor do mundo, tem nos bacamarteiros uma de suas expressões mais autênticas e tradicionais. Eles não são apenas uma atração visual, mas sim, ditam o ritmo da tradição e representam a própria essência da cultura. Para o presidente da Associação dos Bacamarteiros de Caruaru e Região, Janduí Santos, quando o bacamarte estrala no terreiro, ele reverbera o orgulho de ser nordestino.
“Podemos dizer que há um uma relação histórica entre a festa junina e os grupos de bacamarteiros. Carregam uma emoção significativa ao integrar a programação de São João. Isso contribui para a promoção da cultura do Bacamarte e para a criação de memórias afetivas marcantes”, avalia.
Os bacamarteiros são considerados Patrimônio Cultural Imaterial de Pernambuco, e a sua presença no São João da cidade é o elo que garante que a festa não seja apenas um festival de música. No dia 24 de junho, dia de São João, a capital do forró se transforma no palco do maior espetáculo da nossa tradição, o 96º Encontro de Bacamarteiros. Centenas de brincantes, vindos de vários batalhões do Agreste, colorem e estremecem as ruas da cidade.
Resistência
Mas o São João de Caruaru também é palco de evolução e resistência. A presença de mulheres comandando batalhões de bacamarteiros quebra barreiras patriarcas e reconfigura o cenário cultural. Um exemplo é o de Ângela Maria de Oliveira, ou simplesmente Dona Ângela. Há 4 anos, ela comanda o 27º Batalhão de Serra dos Cavalos de Caruaru, que antes era liderado por familiares.

“As dificuldades que eu tive foi no início, viu? Quebrar tabu, porque é brincadeira de homem, né? Tinha o preconceito das próprias mulheres, porque não era lugar de mulher. Hoje não. Desde que eu assumi como chefe, sou muito querida pelos meus bacamarteiros. E também tenho bacamarteiras”, revela.
Enquanto houver um batalhão marchando e o chão do Agreste tremer, a certeza é uma só: a tradição dos barcamarteiros seguirá viva, pulsante, e acima de tudo, se renovando para o futuro.
Ficha Técnica
Sonorização: Lucas Barbosa
Produção e Reportagem: Antônio Marcos


