Por Pedro Veloso
Fui ao supermercado recentemente e, ao entrar na fila do açougue, reparei que o clima mudou. O local, que antes era apenas um ponto de passagem trivial entre o hortifrúti e a padaria, se transformou numa espécie de Muro das Lamentações. Intrigado, parei para observar a coreografia.
É sempre do mesmo jeito: o sujeito chega animado, o açougueiro pesa a peça, cola a etiqueta e entrega o pacote. Nesse momento, o clima pesa e acontece o luto. O cliente olha o preço, franze a testa, encara o açougueiro como quem busca um cúmplice para um crime e, sem apoio, coloca a carne no carrinho e vai embora.
Atrás de mim na fila, uma senhora encarava o preço da carne moída com a mesma incredulidade de quem vê um disco voador. Ela ajeitou os óculos, bufou e soltou a sentença para quem quisesse ouvir: “Isso é um absurdo! O fazendeiro deve estar acendendo charuto com nota de cem reais, enquanto a gente paga a conta.”
Eu adoro essa imaginação fértil urbana. Na cabeça dela, o campo é uma festa contínua financiada pelo sofrimento do churrasco alheio. Mal sabe ela que o preço na etiqueta não é sinal de luxúria, é sinal de ausência.
Se eu tivesse a coragem — e a falta de juízo — de puxar papo ali na fila, eu explicaria que estamos vivendo uma ressaca gastronômica que começou lá em 2023 e 2024.
Lembra? A carne estava mais barata. O churrasco de domingo era farto. O consumidor achava que era promoção, mas era puro canibalismo industrial. O pecuarista, apertado pelos custos e recebendo pouco pelo boi, fez o que qualquer empresário desesperado faria para não falir: vendeu a fábrica.
No nosso caso, a “fábrica” era a vaca. A matriz. A mãe.
Nós comemos as mães que deveriam gerar os bezerros de hoje. Foi um banquete suicida, financiado pela destruição do futuro. Foi delicioso enquanto durou, mas a conta chegou. E a natureza, meus caros, não é uma senhorinha que faz bolo com café no fim da tarde, é uma senhora conservadora, brava e vingativa. Ela não entende o conceito de “entrega expressa” do Mercado Livre.
Você pode pedir um Uber e ele chega em três minutos. Você pode baixar um filme em segundos. Mas para fazer um bezerro virar bife? Ah, amigo… a biologia exige nove meses de gestação e mais dois anos de pasto. Não tem app, não tem coach, não tem inteligência artificial que convença uma vaca a parir mais rápido.
O pasto está vazio porque a fábrica foi desmontada. E é por isso que a etiqueta do supermercado assusta. O bezerro, aquele bicho desengonçado, virou a nova criptomoeda. Quem tem, não vende; quem não tem, chora.
E aqui mora o perigo para o produtor rural, aquele que a senhora da fila acha que está estourando champanhe.
O pecuarista olha o preço da arroba nas alturas e se sente o Eike Batista no auge. Vende a boiada, vê a conta bancária gorda e o olho brilha para trocar de caminhonete. É o canto da sereia. Porque na hora que ele volta para o mercado para comprar bezerros novos e repor o estoque, descobre que o dinheiro que entrou mal paga o que precisa sair.
A tal “relação de troca” é a pegadinha do ano. O sujeito corre o risco de ficar com o bolso cheio de dinheiro desvalorizado e a fazenda vazia, criando apenas vento e saudade.
Portanto, da próxima vez que você for ao mercado e sentir aquela pontada no peito ao ver o preço da maminha, não culpe a ganância. Culpe o tempo. Estamos pagando o preço de ter jantado o nosso próprio futuro alguns anos atrás.
A carne vai baixar? Vai. Mas a vaca não tem pressa. Ela segue o relógio do sol, não o da bolsa de valores.
Até lá, minha sugestão é reatar a amizade com o frango. Ele é gente boa, fica pronto rápido e nunca nos deixou na mão. Já a picanha… bom, essa virou artigo de colecionador. E como toda raridade, exige paciência – ou um limite de crédito muito bom.


