Uma pesquisa realizada em parceria entre a Universidade de Pernambuco (UPE), a Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ) e a Fiocruz identificou que mais de 20% das crianças com microcefalia associada ao vírus Zika desenvolveram má-formação depois do nascimento. Os pesquisadores acompanharam 843 crianças nascidas entre 2015 e 2018 em nove cidades das regiões Norte, Nordeste e Sudeste, sendo a maioria de Pernambuco e da Bahia.
Os resultados da pesquisa foram publicados no fim de dezembro na revista científica norte-americana PLOS Global Public Health. O professor e infectologista Demócrito Miranda, da Universidade de Pernambuco (UPE), é um dos 49 pesquisadores que assinam o artigo. Para reportagem da CBN Recife, ele explicou que esse é o estudo mais robusto já realizado sobre o assunto por reunir dados de 12 grupos de pesquisa diferentes.
“Nós acompanhamos as crianças com microcefalia nos três primeiros anos de vida, em três regiões geográficas do Brasil: Norte, Nordeste e Sudeste. Primeiro, esses dados foram publicados em estudos individuais, com cada grupo descrevendo os seus achados. Mas agora a gente faz um compilado geral. É o maior estudo já publicado com dados individuais de crianças com microcefalia no mundo”, explica.
Sobre o dado de que 20% das crianças com microcefalia associada à zika desenvolveram má-formação depois de nascer, o professor Demócrito Miranda conta que, apesar de terem nascido com a cabeça do tamanho normal, o dano cerebral provocado pelo vírus não permitiu o crescimento do cérebro.
“Esse cérebro foi agredido por um vírus, nesse caso, o da Zika, que destrói parte do tecido em formação para criar as estruturas cerebrais. Com essa destruição, várias estruturas deixam de se desenvolver ou sofrem um processo de atrofia, e também ocorrem calcificações dentro do cérebro. Isso leva a uma deformidade ou um retardo no crescimento das estruturas cerebrais e crescimento inadequado. É importante descrever as características desse acometimento por ser diferente de outros casos que podem levar à microcefalia. Existem outras doenças virais, também parasitárias, que levam à microcefalia”, pontua”.
Com o surto de microcefalia associada ao vírus Zika tendo completado 10 anos em 2025, os pesquisadores voltam os olhos para questões como a evolução das crianças e as complicações que elas apresentam, para que os serviços de saúde consigam promover uma estrutura assistencial adequada às famílias.


