A volta dos trabalhos legislativos em Pernambuco expôs, mais uma vez, que, na política, o gesto pesa tanto quanto a palavra.
Enquanto a Câmara do Recife reabria suas atividades sem a presença do prefeito João Campos, a governadora Raquel Lyra escolheu marcar território na Assembleia Legislativa, ocupando espaço e emitindo sinais.
João optou por não ir pessoalmente à Câmara e enviou um secretário como porta-voz. Oficialmente, agenda em Brasília. Politicamente, uma escolha que soa como tentativa de reduzir a exposição em um momento de ambiente hostil, com tensão crescente no Legislativo municipal e temas sensíveis no ar. Ausência, nesse caso, não é descuido: é estratégia defensiva.
Raquel fez o movimento oposto. Ao priorizar a Assembleia, reforçou a imagem de governadora presente, institucional e disposta ao diálogo. Seu discurso, focado em confiança nas instituições, estabilidade e união, dialoga diretamente com o cenário de embate entre Estado, Prefeitura do Recife e parte da própria Alepe. É uma forma de se colocar acima da briga direta, mas sem abrir mão do protagonismo.
No pano de fundo, está a mensagem enviada por João por meio do secretário: defesa da gestão, normalidade administrativa e disposição para seguir governando apesar das turbulências. Já Raquel trabalha para fixar a ideia de comando, previsibilidade e controle político.
Em resumo: João escolhe preservar-se. Raquel escolhe ocupar. Dois movimentos distintos, com o mesmo objetivo: sobreviver e se fortalecer em um tabuleiro que já começa a desenhar 2026. Na política pernambucana, até a cadeira vazia comunica.
PRESSÃO NAS GALERIAS – As galerias da Assembleia Legislativa ficaram tomadas por manifestantes, com gritos, vaias e palavras de ordem contra a governadora Raquel Lyra. Na pauta, cobranças por reajuste salarial e redução no valor das passagens de ônibus.
RECADO – No discurso de abertura do ano legislativo, o presidente da Casa, Álvaro Porto, reforçou a autonomia da Assembleia, a independência entre os poderes e o papel fiscalizador do Legislativo. Nas entrelinhas, o recado à governadora é claro: a Alepe não será extensão do Palácio e seguirá exercendo protagonismo próprio.
LACRANDO – A intervenção do vereador Eduardo Moura (Novo) ao secretário que representava o prefeito João Campos na abertura dos trabalhos da Câmara deu o tom do que deve ser 2026 no Legislativo municipal: embate aberto e pouca disposição para gestos de cortesia política.
FRASE DO DIA – “O estado é maior do que qualquer projeto individual. Não sou dona de nenhuma instituição, mas hoje represento todas”, discursou a governadora Raquel Lyra.
RÁPIDAS
MAIS FILIAÇÃO – O prefeito de Serrita, Aleudo Benedito, oficializou filiação ao PSD e reforçou o time político da governadora Raquel Lyra. O gesto amplia a base do partido no Sertão e sinaliza alinhamento antecipado para 2026.
JUNTOS – O prefeito João Campos e a governadora Raquel Lyra estiveram juntos na posse do novo presidente do Tribunal de Justiça de Pernambuco, Francisco Bandeira de Mello. Ambos fizeram questão de prestigiar a posse do magistrado, em um gesto claro ao Judiciário.
SEGUINDO O MODELO – O deputado estadual Romero Albuquerque (UB) seguiu a linha do vereador Eduardo Moura (Novo) e interpelou o secretário de Defesa Social, Alessandro Carvalho, durante live, sobre a investigação da Polícia Civil envolvendo secretários da Prefeitura do Recife. Direto, foi ao ponto: “Quem deu a ordem, secretário?”
PINGA-FOGO: Quem acertou na estratégia: João Campos, que evitou o campo minado, ou Raquel, que foi pra cima?


