Em janeiro, o Ministério da Integração e do Desenvolvimento Regional (MDR) reconheceu situação de emergência em 107 municípios pernambucanos devido à estiagem prolongada, que atinge, principalmente, cidades do Sertão e do Agreste. Mas a falta de chuvas não está limitada a essas regiões. Segundo o último Monitor das Secas, produzido pela Agência Pernambucana de Águas e Clima (Apac), a Zona da Mata e o Litoral do estado já enfrentam condições de seca moderada e fraca.
E considerando que grande parte de Pernambuco sente os efeitos da seca há meses, o alerta se torna ainda maior com a previsão da Apac de que as precipitações ficarão abaixo da média até o mês de abril. Ou seja, reservatórios como Jucazinho, no Agreste – hoje, com 0,63% da capacidade -, permanecerão em baixa, provocando perda de produção e necessidade de grandes deslocamentos para buscar água.
São problemas que pareciam ter ficado no passado, mas que na verdade, estão no cotidiano de muitas famílias que dependem da terra para sobreviver. E com as mudanças climáticas, também serão o futuro delas se medidas urgentes não forem adotadas.

Jataúba
No sítio Cachoeira do Jacu, em Jataúba, no Agreste Setentrional, a agricultora Adelice Bezerra, de 39 anos, planta milho, feijão e até palma. A agricultura de subsistência faz parte da sua vida desde que nasceu. Por isso, percebe com clareza os sinais que a natureza dá.
“Em anos anteriores, a gente sempre tinha trovoada de dezembro para janeiro. Até agora, a chuva por aqui chegou pouco e a falta d’água tá bem complicada, principalmente pra gente que tem animais, como gado. Os barreiros estão secos, a minha cisterna já está beirando o último anel, e a gente está tentando economizar da melhor forma possível. Água para lavar roupa e para gasto (uso diário), vou buscar na casa da minha sogra, que tem um pouco mais”, afirma.
Adelice também conta que, como os açudes da região são pequenos, não conseguem comportar a demanda de todos que moram no entorno. Por isso, as cisternas particulares, como a da sogra, e os pontos abastecidos pela Operação Carro-Pipa, do Exército Brasileiro, têm ajudado.
Ainda assim, é preciso percorrer de 1 a 3 km para chegar até esses espaços. “A gente tem que pagar transporte, porque não tem carro. E aí a gente tem que comprar a carrada d’água. Se eu não me engano, as pessoas cobram aproximadamente R$ 30 por cada cada viagem”, lembra.
Perda de produção
No Agreste e no Sertão, a ONG Centro Sabiá auxilia as famílias agricultoras com o trabalho de assessoria técnica, acompanhando os sistemas de produção para que sejam cada vez mais resistentes à estiagem com tecnologias de convivência com o semiárido.

Wellington Gouveia é assessor técnico do Centro Sabiá no Agreste. No contato com as famílias agricultoras, especialmente em Jataúba, ele tem escutado sobre a perda de sementes devido às altas temperaturas, que influenciam na germinação. Os grandes deslocamentos para buscar água também são relatados constantemente.
Ele conta que, por meio da assessoria do Centro Sabiá, as famílias que conseguiram implantar sistemas agroflorestais, como as do Sítio Sobrado, ainda mantêm a produção por meio das nascentes preservadas. Mas a ação humana impacta diretamente a realidade na região.
“No município de Jataúba eu vejo muita queimada; muita coivara, como o pessoal chama; muito desmatamento, muito caminhão carregando madeira. Então tudo isso piora a situação e eu vejo que a situação tende a piorar, tendo em vista que nós não conseguimos chegar a todas as famílias”, pontua.
De acordo com a plataforma Mapbiomas Alerta, desde 2020, 134,4 hectares de Caatinga foram desmatados somente em Jataúba, que está entre as cidades em situação de emergência pela estiagem no estado. O espaço corresponde a quase 11 estádios de futebol do tamanho da Arena Pernambuco, em São Lourenço da Mata, no Grande Recife.
Ação
Com a previsão de que os próximos meses continuem sendo de pouca chuva e muito calor, além do retorno do El Niño no Oceano Pacífico, agravando a seca, o agricultor familiar precisa se adaptar para conseguir manter a sua produção, como detalha a coordenadora geral do Centro Sabiá, Maria Cristina Aureliano.
“Temos trabalhado bastante com a recuperação de nascentes, além das campanhas educativas para evitar queimadas, estimular que os agricultores mantenham a cobertura vegetal das suas propriedades. E também trabalhamos muito com o lado social, que seria o fortalecimento das organizações de agricultores, seus sindicatos, fortalecendo para uma ação política mais efetiva de cobrança aos governos por acesso às políticas públicas, como no caso das cisternas”, detalha.
São as medidas urgentes. Com a água se tornando cada vez mais escassa, cada gota conta. Fica a expectativa pela volta da chuva, mas mesmo sem ela, ações como a do Centro Sabiá mostram que não há mais tempo a perder, ao mesmo tempo em que se tem muito a preservar – incluindo a vida.


